Thursday, September 15, 2011

Cama de encantar ou as saudades de “amor, sexo e uma cabana”…


Ela hoje passou a noite num palácio, numa cama diferente. Uma cama de dossel de colchão fofo, edredão de tecido toile jouy que a fez viajar ao tempo das princesas. Tinha ainda lençóis de algodão branco, frescos e macios, como ela mais gosta. A cama dos seus sonhos, com a companhia perfeita, um homem-príncipe-encantado que, dificilmente, virará sapo.
Olhava para o tecto, entre beijos e abraços sobre o seu corpo, e vislumbrava um candelabro de cristal com pendentes vítreos em forma de lágrima. Paredes alvas os rodeavam e um fresco pintado nelas transportava-a para um mundo de pura e deliciosa fantasia.
Enquanto estocadas profundas e meigas lhe tocavam o útero, enquanto carícias molhadas e quentes a envolviam em carinho, enquanto aquele homem-príncipe-encantado a tratava como rainha, ela teve saudades. Muitas, muitas saudades.
Saudades da cama onde ontem dormia. Uma cama de colchão de molas antigo, que lhe magoava o corpo em cada pequeno movimento, com um cobertor básico e já sem forma e lençóis sintéticos que ela nunca gostou. Nessa cama nem sempre a companhia foi perfeita, o seu homem-sapo só de quando em vez virava príncipe. Eram amor, sexo e uma cabana…
E ainda assim sentiu saudades.
Saudades de olhar para o tecto e ver o reflexo dos seus corpos em espelhos lascivos já partidos. Saudades da violência emotiva que sucedia o prazer máximo, ali, rodeada de paredes vermelhas e comoções sangue. Nada ilustrava essas paredes, excepto a urgência, a fome, o desespero de ter em si aquele homem-sapo.
Saudades da loucura que era o clímax misturado com dor, do corpo e do espírito. Saudades dos dilúvios orgásticos que lhe ferviam a pele e lhe envenenavam o desejo por mais. Saudades de ser tratada como objecto de luxúria, em delírios fisicamente fugazes que, para sempre, deixaram marcas na sua memória. Tatuagens íntimas, permanentes, com assinatura de autor.
Ela ama insanamente o seu homem-sapo, ainda hoje. E não há histórias cor-de-rosa de encantar com camas de dossel que, um único dia, apaguem a intensidade que a dois viveram. 


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